A
quaresma na vida de São Francisco, além do aspecto penitencial e de
conversão, encontra sentido no seu desejo de “conformar-se a Cristo” e
com a intenção de reviver os mistérios que desfilam ao longo do ano
litúrgico. Por isso, ele não se contentou em fazer uma
quaresma, mas cinco quaresmas ao longo do ano, cada uma com um objetivo
como veremos a seguir:
1. A “Grande Quaresma”, este tempo que nós estamos vivendo: nesta
quaresma, o Santo de Assis, celebra, como nós estamos nos preparando
para celebrar, o grande mistério da morte e ressurreição de Jesus,
período em que queria, com o maior empenho possível, responder ao amor
do Filho de Deus que, como nos lembra o evangelho de São João (13,1),
nos “amou até o fim”. E a
penitência, a mortificação e oração que S. Francisco fazia, tinha o
intuito de imitar e conformar-se com o Cristo que, “sendo rico se fez
pobre; sendo de condição divina, se desvestiu desta condição e
humilhou-se, até morrer na cruz...” (Fl. 2,5-8).Conta-se
que Francisco, para esta quaresma, levou somente dois pãezinhos e,
durante estes 40 dias comeu metade de um deles (I Fioretti 7).
2. Quaresma do Advento:
para celebrar o mistério da encarnação do filho de Deus S. Francisco de
Assis fazia esta quaresma, que ia da Festa de todos os Santos até a
vigília do Natal. Ele se retirava para a solidão, rezava, meditava,
jejuava com a finalidade de “submeter o corpo ao Espírito”(Espelho da
Perfeição 62). O Tema central de sua meditação, nesta quaresma, era a
humildade do Filho de Deus que quis assumir a forma de servo e nascer em
condições de extrema pobreza e mortificação. Foi nesta quaresma que, no
ano de 1223, aconteceu o presépio de Gréccio (1Cel 84).

3. Quaresma da Epifania ou quaresma “bendita” como a chamava São Francisco:
Com esta quaresma São Francisco pretendia estabelecer o laço entre o
tempo do Natal e da Páscoa. Por este motivo diz o seu biógrafo Tomáz de
Celano: “O
santo de Assis meditava nas palavras do Senhor e recordava seus atos
com muita inteligência. Mas sobretudo tinha impressas na memória a
humildade da encarnação e a caridade da paixão que dificilmente pensava
em outras coisas” (1Cel.
84). Esta era uma quaresma rigorosa de jejuns e orações, exigida de
todos os frades que desejassem fazê-la, como ele pede na Regra não
Bulada 3,6: “A
santa quaresma, porém, que começa na epifania e se estende por quarenta
dias consecutivos que o Senhor consagrou com seu jejum, os que quiserem
nela jejuar tenham a benção do Senhor; mas os que não quiserem não
sejam obrigados”.
4. Quaresma de São Miguel Arcanjo:
Esta quaresma tinha início no dia da festa da Assunção de Nossa
Senhora, a primeira e a mais importante das festas marianas, segundo S.
Francisco, e terminava no dia da festa de São Miguel Arcanjo. O tema de
sua meditação, nesta quaresma, é o mistério de Cristo, as coisas do
alto, o Céu, desejando estar plenamente unido a Cristo, confiando
plenamente na providência divina.
Tinha uma devoção muito grande pelos anjos, pois estão conosco no
combate; são os nossos guardas (Cf. 2Cel 197) . Muitas vezes dizia que
devemos honrar de maneira especial São Miguel porque é o encarregado de
apresentar as almas ao julgamento. É durante uma destas quaresma, em
honra de São Miguel que acontece o milagre dos estigmas, sinal de sua
mais alta conformidade com Cristo (Legenda Maior 13,1).
5. Quaresma que ia da Festa dos Apóstolos Pedro e Paulo até a Assunção:
Esta quaresma é expressão de sua profunda piedade eclesial, de sua
comunhão com a Igreja. A conclusão desta quaresma no dia da Festa da
Assunção de Maria, acentuava sua devoção a Nossa Senhora. Maria, para
ele é figura da Igreja. Como lembra São Boaventura: “Seu
amor à mãe do Senhor Jesus era realmente indizível pois nascia em seu
coração ao considerar que ela havia convertido em nosso irmão o próprio
Rei e Senhor da glória e que por ela havíamos merecido alcançar a
misericórdia divina. Em Maria, depois de Cristo, depositava toda sua
confiança; por isso a constituiu advogada sua e de seus irmãos, e em sua
honra jejuava devotamente desde a festa de São Pedro e São Paulo até o
dia da Assunção” (LM 9,3).
Que,
a exemplo do Santo de Assis, esta quaresma seja para todos nós um
entrar, uma participação no mistério da morte e ressurreição de Jesus. Que
a celebração da Paixão do Senhor nos leve a ter Compaixão por todas as
pessoas e também pela natureza, isto é, nos leve a ter os mesmos
“sentimentos” de Jesus que, fiel ao Pai, nos amou com extremo amor,
dando a própria vida para que tivéssemos vida e vida em plenitude (Jo
10,10)
Frei Alonso Aparecido Pires, OFMCap
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