Logo na entrada da cidade de Barra Longa
(MG), quem recebe visitantes não é a estátua de um personagem
histórico, mas a de um monstro esverdeado de boca aberta com longos
dentes, pele escamosa e barbatanas nas costas. A lenda do Caboclo d'Água
nasceu do medo do rio.
Os pais usavam a história para
aterrorizar as crianças e, assim, evitar que elas fossem perto da água
sozinhas. Hoje, o terror é outro. É a lama quem tira o sono de boa parte
dos 6 mil habitantes do município.
Em visita ao local no último final de
semana, o G1 presenciou cenários trágicos de uma das cidades mais
atingidas pelo desastre ambiental causado pelo estouro da represa de
Fundão, em Mariana, que fica a 60 km dali. E conversou com moradores
tanto da área urbana quanto da zona rural, que ainda terão que lidar com
as consequências do desastre por um longo tempo.
Em uma esquina da praça de Barra Longa, o
Restaurante e Pizzaria do Fernandão chama atenção por ser um dos poucos
estabelecimentos que seguem com a placa à mostra e as mesas no andar de
cima aparentemente esperando o horário de abrir.
Mas quando se sobe as escadas laterais, o que se vê é uma sala de estar improvisada ao lado das várias mesas do salão.
Fernando Pimenta Trindade morava no
andar térreo, sob a pizzaria, com a mulher, Maria da Conceição Severino
(apelidada Titita, ou Tita), os filhos Manoel Carlos, de 3 anos, e João
Marcos, de 2, e o enteado, David, de 12. Eles estavam em casa quando a
cheia do rio começou. "A gente viu descer de tudo aí: carro, gado,
ônibus, poste... Só mais tarde a água e a lama começaram a entrar na
praça lá pela outra ponta", lembra, apontando a esquina oposta, à
beira-rio.
Segundo ele, durante a cheia vizinhos
conversavam sobre a possibilidade de a lama atingir as casas ou não, sem
saber se deveriam começar a esvaziá-las ou só subir os móveis e
eletrodomésticos rentes ao chão. "Não teve qualquer aviso oficial do
risco, então muita gente perdeu muita coisa aqui na praça", explica o
comerciante, que também trabalha como secretário administrativo da
Câmara Legislativa da cidade.
"Todos nós fomos afetados de certa
forma, mas os mais afetados não estão recebendo o apoio devido", diz
Titita, que acredita em falta de vontade política para ajudar a
população.
Além dos sérios prejuízos na casa, o
casal está com o negócio parado e começa a sofrer com problemas
decorrentes da enchente, como o sistema de esgoto, que começa a entupir.
A família já teve aprovado o aluguel provisório de outra casa pela
Samarco e deve se mudar em breve.
"O que eu cobro deles é uma resposta
quanto às nossas perdas, com o negócio parado, mas sempre me respondem
que a prioridade é colocar famílias atingidas em outras casas. Agora,
até que dia vai essa prioridade? E as outras prioridades? A gente está
sem trabalhar e a gente não quer assistencialismo. A gente quer
trabalhar", afirma Fernando.
Na manhã de sábado (21), a reportagem do
G1 foi abordada no centro de Barra Longa pela autônoma Sandra Maria da
Silva, de 40 anos, que queria mostrar a situação em que sua família se
encontra. Seu quintal foi destruído, a lama chegou à beira da casa e,
segundo a moradora, rachaduras têm surgido na parede lateral nos últimos
dias. A família teme agora que a casa desabe dentro do rio.
Com uma caminhada de 20 minutos partindo
do centro se chega à rua Primeiro de Abril, que tem um dos lados com
casas voltadas para o Rio do Carmo. É na última casa da rua que moram
Sandra e seu companheiro, Renato dos Passos, de 38 anos, ajudante de
pedreiro, além dos filhos Athur e Ana Clara

.
"Achei que o risco era por causa da
parte de baixo, mas um engenheiro da Prefeitura veio ontem à tarde e
disse que o barranco de cima também pode cair a qualquer momento", conta
Sandra. Cerca de 15 metros acima da casa passa a via principal de
entrada na cidade, que tem recebido muito tráfego de máquinas pesadas
devido às operações de retirada de lama.
Renato mostrou pequenas rachaduras que
também já são visíveis no asfalto. Uma árvore próxima, que fica diante
da casa, também representa uma ameaça para a família. O morador teme o
rompimento do asfalto e a queda dela.
Depois de falar com a reportagem, Sandra
conseguiu contato com um representante da Samarco que lhe disse que a
empresa pagaria o aluguel de uma casa para a família sair dali, mas que
seria necessária antes a constatação do risco por alguém do Conselho
Tutelar.
Na tarde de segunda-feira (23), Sandra
informou ao G1 por telefone que o processo já estava seguindo, mas que
talvez a família tenha que sair de Barra Longa, porque praticamente
todas as casas antes disponíveis já estão alugadas. "Agora corre o risco
de a gente ter que ir para Acaiaca", contou a autônoma, referindo-se a
uma cidade vizinha a 20 km de distância.
Entrando na zona rural de Barra Longa,
logo depois de passar pelo povoado de Gesteira a estrada chega ao Sítio
da Pamonha, à beira do rio Gualaxo do Norte, propriedade do agricultor
Vítor José Cota, o Seu Vitinho. Ele e a mulher tiravam o sustento
principalmente da venda de leite de suas vacas.
Com a devastação trazida pelo Gualaxo,
parte do pasto e da plantação de cana-de-açúcar foi tomada pelo barro.
Das 95 vacas da fazenda, pelo menos 30 foram levadas pelo rio ou
desapareceram. Uma ponte que ligava a região à sede do município foi
arrancada pela força da lama, e o acesso passou a ser feito só por
veículos com tração 4x4 quando a lama se acumula com a chuva.
"As vacas estão sem trato, o leite não
está saindo (sendo vendido)... Não tem como pegar. O acesso aqui está
ruim. Quando o caminhão vem, se está chovendo ele não passa. A máquina
vem, tira a lama. Vem chuva, outra lama. Estou perdendo [leite]", conta
Seu Vitinho.
Uma das maiores dores com que o casal
tem de lidar diariamente é ver do outro lado do rio uma de suas vacas
ainda viva, atolada com as quatro patas presas à lama acumulada. Já
bastante magra, a vaca resiste há dias apenas movimentando o pescoço
para olhar ao redor.
Equipes de voluntários cogitaram fazer
uma operação para tentar resgatar o animal, mas o acesso está quase
impossível já que há muita lama ainda fofa ali.
Gesteira, o povoado vizinho ao sítio de
Seu Vitinho, teve casas destruídas por uma enchente do Rio Gualaxo do
Norte em 1979, o que motivou sua mudança de um lado para o outro do rio,
em um ponto mais alto. Quem relatou essas memórias ao G1 foi Selmo
Magalhães Gomes, de 74 anos, nascido ali mesmo na região e dono de uma
vendinha no povoado.
De uma casa de Gesteira invadida pela
lama na beira do rio, onde memórias de uma família ainda são vistas nas
paredes, é possível ver toda a área da igreja tomada pelo barro. A marca
do nível que a água e a lama atingiram é vista a mais de 3 metros de
altura na fachada do templo.
A escola que ficava à direita do prédio chegou a ficar completamente submersa antes de o rio voltar a baixar.
A comparação entre os dois desastres é
inevitável, mas fica fácil dizer qual foi o pior. "A de 79 foi mais
agradável. Essa agora foi muito pior. Pior porque o nível da enchente
foi muito mais alto, e uma lama...", diz Selmo sentado à porta de sua
venda, com vista para a lama do Gualaxo.
Fonte: G1 - imagens internet.