No dia 9 de março, completou-se 1694 anos da morte dos 40 mártires do gelo. Você conhece a história destes homens?
Três grandes homens de Deus do passado
escreveram sobre uma história realmente impressionante de amor a Cristo e
de martírio. Gregório de Nissa (séc. IV) escreveu sobre a festa que a
igreja em seu tempo criou para celebrar a memória dos 40 mártires.
Alguns de seus sermões falam desses mártires.
Éfrem da Síria (também conhecido como
Santo Éfrem, o Sírio) também citou os 40 mártires em seus escritos. Ele
foi um grande líder e compositor de hinos e poesias. Várias desses hinos
e poesias foram dedicados aos 40 mártires. Éfrem viveu numa cidade
chamada Edessa, cerca de 350 quilômetros ao sul de Sevaste, local onde
os 40 foram mortos por amor a Cristo.
No ano 320 d.C., milhares de cristãos se
espalhavam pelo Império Romano. Apesar de toda perseguição, o número dos
cristãos só aumentava. Havia cristãos em todas as esferas da sociedade.
Inclusive nas forças armadas, obrigatória para todos os cidadãos do
império.
Era comum a religião entre os soldados. Em
cada local onde as legiões de soldados romanos se encontrava haviam
lugares de culto a Mitra, a Jesus, a César, enfim, àquele que tais
soldados consideravam seu Deus.
O episódio dos 40 mártires foi um dos mais
estranhos da história. A começar pelo fato de um número grande de
soldados serem mortos por seus próprios companheiros. TUDO COMEÇOU
QUANDO o imperador Licínio exigiu que as tropas sacrificassem à sua
imagem. Agrícola, governador da região onde estavam os 40 soldados, fez
valer a ordem do imperador. O governador Agrícula, no início de março de
320 d.C., levou à tropa que estava em Sevaste (atualmente na Turquia) a
ordem de Licínio.
No entanto, 40 dos soldados que estavam
ali eram cristãos. Estes, se recusaram oferecer sacrifícios em adoração
ao imperador. Segundo o relato de alguns dos Pais da Igreja, um dos 40
disse assim:
– Não vamos sacrificar, pois isso é trair a nossa santa fé.
O governador, calma mas firmemente respondeu:
– Mas, o que vocês falarão aos seus
companheiros? Pensem! Somente vocês, de toda a tropa de César, irão
desafiá-lo? Pensem! Pensem na vergonha que vocês trarão aos seus
companheiros e à sua legião!
Mas, ainda assim, eles permaneceram firmes em sua posição.
– Desonrar o nome de nosso Senhor Jesus Cristo é algo mais terrível ainda!
O governou respondeu:
– Vocês estão loucos! Vocês não têm nenhum
senhor senão César! Em nome dele eu prometo a promoção para o primeiro
de vocês que der um passo à frente e cumprir o seu dever de sacrificar
ao imperador!
Após breve pausa, nenhum deles se moveu. Então, Agrícola mudou sua tática:
– Vocês irão perseverar em sua rebelião?
Se perseverarem, preparem-se para a tortura, para a prisão e para a
morte! Esta é a sua última chance. Vocês irão obedecer ao imperador?
Embora sabiam que o governador não estava brincando, os soldados mativeram-se firmes em sua resolução. Outro deles afirmou:
– Nada que você vier a nos oferecer
substituirá o que perderíamos no outro mundo. Quanto às ameaças de
tortura, prisão e morte, aprendemos a negar o nosso corpo quando o
bem-estar de nossa alma está em jogo.
– Açoite-os!, gritou Agrícola.
Os próprios companheiros de farda tiveram
de prender e açoitar cada um de seus companheiros. Levaram-nos para
fora, no frio gelado de Sevaste, tiraram-lhes as roupas e os amarraram
em postes. Depois de amarrados, foram chicoteados severamente. Após
isso, chicotes com pequenos ganchos de ferro rasgaram suas peles nuas
espalhando sangue sobre o gelo.
Em meio ao sangue sobre o branco da neve e
aos gemidos de frio e de dor, os soldados que espancaram seus próprios
companheiros deixaram o local do açoite sem que nenhum dos 40 soldados
cristãos voltasse atrás em sua decisão. Depois de algum tempo, Agrícola
ordenou que os 40 fossem presos em sua masmorra até que Lísias, o
comandante daquela legião, chegasse a Sevaste.
QUANDO LÍSIAS CHEGOU, após fracassar em
convencer os 40, chamou Agrícola e ordenou que os levasse para a lagoa,
do lado de fora. Lá, segundo os escritos dos Pais da Igreja, fazia um
frio de cortar as bochechas.
– Vocês ficarão nus, no lago, até decidirem sacrificar aos deuses, disse Lísias aos soldados.
Imediatamente, todos os soldados tiraram
suas roupas e correram em direção à lagoa, extremamente gelada, envolta
por neve em suas margens. Correndo, alguns dos soldados gritaram:
– Somos soldados do Senhor e não tememos nada. O que é morrer, senão entrar na vida eterna? Cantemos, irmãos!
Perplexo, Agrícola viu seus
guardas puxando uma canção e correram para o lago congelado. Chegou a
ordenar que colocassem grandes banheiras ao redor do lago. Sua esperança
era que os soldados, antes de congelarem, se arrependessem e saíssem de
lá para se aquecer e sacrificar ao imperador. Alguns soldados gritavam
para os que estavam no lago tentando convencê-los a sairem de lá.
EM ALGUM MOMENTO, um dos soldados que
estavam fora do lago disse estar vendo espíritos com coroas de ouro
pairando sobre o lago, parecendo estar estendendo roupas para aqueles
que congelavam no lago. Seus companheiros disseram que ele estava
ficando louco por causa do frio. Além de estar extremamente escuro não
se podendo enxergar quase nada, o frio esfaqueava seus rostos.
Naquela hora, um dos 40 que estavam no
lago saiu correndo em direção a uma das banheiras aquecidas. Ajudado por
soldados que estavam do lado de fora, mergulhou numa das banheiras
quentes e morreu instantaneamente por causa do choque térmico. Entrando
em convulsão, acabou morrendo ali.
O guarda que estava do lado de fora e
havia tido a visão, mais que depressa tirou suas roupas e se juntou aos
mártires dentro do lago.
Na manhã seguinte, Agrícola foi avisado de
que haviam 40 soldados mortos dentro do lago, e mais um morto quando
quis escapar do lago. Ordenou que seus corpos fossem tirados do gelo e
queimados. As cinzas deveriam ser jogadas em um rio que passava ali por
perto.
Então, algo inusitado aconteceu. O responsável por jogá-los no fogo percebeu que um deles estava aparentemente vivo e gritou:
– Ei, temos um vivo aqui! É Melito! Coitado, ele é apenas um garoto.
Outro soldado disse:
– É um garoto aqui do local. Ei, veja sua mãe lá.
O soldado acenou para a mãe de Melito e pediu que ela se aproximasse. Ao chegar perto, disse para ela:
– Escute-nos, mãe. Leve seu garoto para casa, salve-o. Nós iremos olhar para outro lado.
A mulher, profundamente triste, vendo seu filho aparentemente morto, respondeu repreendendo-os:
– Que conversa é essa? Vocês querem privá-lo de sua coroa? Eu nunca deixaria isso acontecer!
À medida que os corpos dos mortos eram
colocados sobre uma espécie de vagão que os levaria para a fogueira, sua
mãe fez toda a força para levantá-lo fazendo com que seu filho se
juntasse aos demais cristãos.
Chorando muito, a mãe disse:
– Vá, filho. Vá para o fim dessa jornada
com seus companheiros a fim de que você não seja o último a se
apresentar diante de Deus.
Um dos guardas bateu com as mãos na cabeça, olhou para cima e disse:
– Cristãos! Eu simplesmente não os entendo.
Basílio de Cesareia (séc. IV) foi outro
pai da igreja que também narrou e escreveu a respeito dos 40 mártires.
Basílio disse ter conhecido alguns homens bastante idosos que foram
companheiros dos bravos 40 mártires.
Creio que a história desses homens deve
nos levar a pensar em nossas próprias vidas e histórias. Devemos viver
como homens e mulheres que já morreram também. Embora o martírio
vermelho não exista entre nós, aquilo que os Pais da Igreja chamaram de
Martírio Branco ainda nos desafia.
O martírio branco é o morrer diariamente
sem o derramamento de uma gota de sangue. É o morrer para este mundo,
para o pecado, para as nossas próprias vontades. É lembrar todos os dias
de que já não vivemos mais, mas que Cristo vive em nós. Não nos
esqueçamos nós também de que morremos com Cristo. Vivamos como tais, a
fim de que a luz e a graça de Cristo resplandeçam mais e mais através de
nossas vidas.
Fonte: www.wilsonporte.org
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