O Grande Combate
Amar a Jesus de todo o nosso coração, permitir-Lhe, a poder de amor,
estabelecer em nós, o seu Reino, isto é, fazer-nos semelhantes a Ele,
eis o belo ideal da santidade.
Mas esse reino de Jesus não se estabelece assim tão facilmente…quando
Jesus se apodera da alma, infundindo-lhe o santo amor, não destrói nem
desarma seu adversário, o egoísmo.
Este, ao contrário, entrincheira-se na parte mais inacessível da alma, fortifica-se e resiste ao assaltante.
Antes de compreender os combates de amor, é necessário saber quais as
forças de que dispõe o inimigo. O egoísmo é um inimigo poderoso. Entrou
na alma com o pecado original e daí estendeu seu império sobre todas as
faculdades do homem.
A vontade, devido a esse domínio, tornou-se frágil e propensa ao mal; a
razão, por sua vez, velou-se, e a imaginação emancipou-se; as paixões
revoltaram-se e os sentidos passaram a conspirar constantemente contra a
sã razão.
Esse egoísmo teve tempo de preparar seu refúgio durante anos. Todo o
tempo da infância e adolescência, até ao momento em que a alma
decidiu-se a viver para Deus foi consagrado a alimentar e fortificar o
amor próprio.

O egoísmo lançou, assim, raízes profundas nos hábitos e inclinações.
Todas as fibras do nosso ser, todas as células do nosso organismo foram
como que impregnadas por ele. Todas as idéias que nutrem a inteligência,
todas as representações que povoam a imaginação, todas as palavras que
caem dos lábios, tudo foi mais ou menos penetrado por esse veneno.
E como se esse mal já não fosse excessivo por si mesmo, foi ainda
agravado por tudo quanto rodeia o homem. Os princípios do mundo não têm
outro fundamento que o egoísmo; seus exemplos não encorajam se não o
amor próprio; suas palavras não louvam senão os que se dirigem segundo
suas máximas.
O sorriso, a ironia, o ultraje, a perseguição, o escândalo servem, cada
um por sua vez, para enfastigar do amor de Deus as almas que querem
viver piedosamente em Cristo.
Em suma, o demônio em pessoa agarra-se àqueles que querem resolutamente
seguir os passos de Jesus. Sua tática consiste em alimentar
continuamente o egoísmo. Raramente manifesta-se por uma intervenção
direta. Ele é tão horrível que sua presença assustaria a alma,
afugentando-a para sempre.
Entretanto, ele excita os apetites desordenados da carne; fomenta o
orgulho, excita a paixão da glória, insinua-se ns faculdades,
inclinado-as para o mal. Aproveita-se de todos os acontecimentos
exteriores e de todas as disposições interiores da alma e do corpo para
atingir o seu fim.
Usa do formidável poder que Deus lhe deixou, para tentar os homens; da
experiência de milhares de anos, que adquiriu em seu triste mister,
enfim, de todas as astúcias e de toda a violência que lhe pode inspirar o
ódio a Deus e seus filhos.
Todos os esforços se dirigem para o fim; fazer germinar a semente do egoísmo, e abafar o germe do amor de Deus.
Por quanto esse amor, no começo, não é senão germe, e quão frágil!
A terra na qual Jesus depositou esse germe é uma terra ingrata, onde o
joio tudo invadiu. Essa terra é a natureza humana onde as raízes
cravam-se na carne e no sangue. Como poderá um amor todo espiritual
criar raízes num solo tão estéril?
… Não desanimes, entretanto. Se o adversário é forte, Jesus é ainda mais potente.
Antes de tudo, lembra-te que foi Ele quem criou teu coração. Por mais
aviltado que esse coração esteja, conserva uma certa nobreza, uma
necessidade de profunda felicidade, de paz, de imortalidade; uma sede de
amor que nenhum bem criado pode saciar. É por esse laços
imperceptíveis, porém fortes, que Jesus retêm ou reconduz a si as almas.
Em seguida, Deus entrou na alma do justo com a graça santificante. A
Santíssima Trindade estabeleceu nela seu trono e Jesus apossou-se de sua
vida.
Uma vez que a alma se pôs resolutamente sob a direção desse Mestre todo
poderoso , Ele não desvia dela o olhar: “Palpebrae ejus interrogant
filios hominum” (Sl 10,5). Suas pálpebras interrogam os filhos dos
homens.
Sua bondade previne a alma, acompanha-a e segue. Sua graça sustenta-a,
reanima-a, fortifica-a e cura.Jesus é fiel. Por mais nigorosos que sejam
os ataques infernais, Ele não permite jamais que excedam às forças da
alma (I Cor 10,13).
Jesus é generoso. Ele alimenta a alma com sua própria substância e
todos os dias, se ela assim o quer. Prepara-lhe um banho com seu sangue,
onde ela pode purificar-se de suas manchas e curas suas chagas. Ele
destina à sua guarda um príncipe celeste, incumbido de frustrar a
astúcia de satã, e de reanimá-la, enconrajá-la e estimulá-la ao bem.
Ele a confia enfim à Mãe querida para ser amparada com sua ternura e solicitude maternais.
A presença tão meiga do divino Mestre é velada pela fé; as verdades
mais encorajantes mal transparecem através de espessas nuvens; a ação da
graça é tão delicada, tão sutil, que a alma apenas percebe seu sopro e
nem sente suas carícias.
Não poderia Deus elevar as almas com o poder de sua graça e transportar-lhes a barca num instante até ao porto da satidade?
É óbvio que sim. Mas onde, o prazer que ele sente, ouvindo a pobre alma
murmurar, apesar de tudo, um ato de confiança na sua soberana bondade,
vendo nossa débil natureza, em luta contra tantos obstáculos, exposta à
correntes diversas, remar, mesmo assim, com os olhos e os coração fixos
Nele? Onde, então, a admiração dos anjos e santos no céu, se eles não
tivessem sob os olhos o espetáculo de tanta constância de alma num corpo
tão frágil, tantos esforços para o céu num ser todo inclinafo aos
prazeres da terra?
Oh! não te aflijas, minha alma, não temas.
O Onipotente luta em ti e por ti. Jesus não te abandonas, e conduzir-te-á à vitória.
Tais são as condições desse combate entre o amor e o egoísmo, entre o
céu e o inferno, entre Jesus, o Rei da Glória, e satã, o príncipe das
trevas.
Tu, minha alma, se és a causa da luta, és também o árbitro.
… Ai de nós!
Ele criou tua vontade livre, e não a violentará.
És tu quem escolherá entre Jesus e satanás, entre o amor e o egoísmo,
entre o prazer que podes proporcionar a teu bom Mestre, morto por ti, e a
aflição que lhe causarás com a tua infidelidade.
A ti compete escolher se pertencerás a Jesus e até que ponto lhe
pertencerás, se serás um cristão comum ou uma alma de elite, se
arrastarás no mundo a corrente de teu egoísmo ou se alçarás o voo nas
asas do divino amor.
Ó Jesus! mil e mil vezes sou vosso.
Auxiliai-me a pelejar nos combates do amor.
O Divino Amigo – Padre Joseph Schrijvers
Fonte: Dominus Est