quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Algumas dúvidas.... reflexões no rumo da Igreja

Polêmica: Boff, o neo-papista, massacrado publicamente por Vittorio Messori.

Apresentamos a seguir três artigos da recente polêmica, veiculada na imprensa italiana, entre Vittorio Messori, conhecido jornalista italiano, autor de livros-entrevistas com João Paulo II e Bento XVI e entusiasta de ambos, e o “teólogo” brasileiro neo-papista Leonardo Boff. 
Com o Cardeal Gerhard Müller cada vez mais isolado em sua defesa intransigente do matrimônio católico em uma Cúria adormecida, não surpreenderia se Leonardo Boff fosse chamado à chefia do Santo Ofício, de onde poderia aplicar sua misericórdia francisquista convidando Messori, ou quem sabe o próprio bispo emérito de Roma, a sentar-se naquela famosa “cadeira em que sentou Giordano Bruno”, como ele sempre fez questão de repetir acerca dos episódios de outrora em que ele, coitadinho, foi injustamente perseguido. Tempos obscuros aqueles! Agora temos Francisco, o libertador!
Tradução de Gercione Lima – Fratres in Unum.com
As dúvidas sobre a virada do Papa Francisco
Corriere della Sera, 24 de dezembro de 2014, Vittorio Messori
EL PAPA FRANCISCO Y LOS CRISTIANOS LATINOAMERICANOSEu creio que seria honesto ter que admitir agora: abusando talvez do espaço que me foi concedido, o que proponho aqui, mais do que um simples artigo, é uma reflexão pessoal. Aliás, uma espécie de confissão que eu teria todo o prazer em adiar se não me fosse solicitado. Mas sim, adiada porque a minha (e não só minha) avaliação deste papado oscila continuamente entre adesão e perplexidade, é um julgamento mutável dependendo do momento, da ocasião, e dos temas. Um papa não imprevisto: por que no que me diz respeito, eu estava entre aqueles que esperavam um sul-americano, um homem de pastoral, de experiência cotidiana de governo, que nos proporcionaria quase um equilíbrio entre o admirável professor, um teólogo muito refinado para alguns paladares, tal qual é o nosso amado Joseph Ratzinger. Um papa não inesperado, portanto, mas que subitamente desde aquele seu primeiro “boa noite”, revelou-se imprevisível, a ponto de mudar gradualmente a mente até mesmo de alguns cardeais que estavam entre seus eleitores.
Papa+Francisco
Uma imprevisibilidade que continua perturbando a tranquilidade do católico médio, habituado a não ter que pensar por conta própria no que diz respeito a fé e moral, e que sempre foi exortado a simplesmente “seguir o Papa”. Sim, mas qual Papa? Aquele de certas homilias matutinas em Santa Marta, dos sermões dos  párocos à moda antiga, com bons conselhos e provérbios sábios, chegando mesmo a nos advertir para não cairmos nas armadilhas que nos arma o demônio? Ou aquele que telefona a Giacinto Marco Pannella, o qual está empenhado novamente em mais uma enésima greve de fome e deseja-lhe “bom trabalho”, quando por décadas, o “trabalho” do líder radical consistiu e consiste apenas em pregar que a verdadeira caridade está na luta pelo divórcio, o aborto, a eutanásia, a homossexualidade para todos, a teoria de gênero e assim por diante? O Papa que no discurso destes dias à Cúria Romana, citou com convicção Pio XII (mas, na verdade, o próprio São Paulo), que define a Igreja “corpo místico de Cristo”? Ou aquele que na primeira entrevista a Eugenio Scalfari, ridicularizou aqueles que pensam que “Deus é católico”, como se a Igreja Una, Santa, Apostólica, Romana fosse um acessório opcional para vincular, de acordo com o gosto pessoal de cada um à Trindade divina? O Papa Argentino consciente por experiência direta do drama da América Latina que está prestes a se tornar um continente ex-católico devido à apostasia em massa desses povos para o protestantismo pentecostal? Ou o Papa que tomou um avião para abraçar e desejar bom sucesso a um querido amigo, um pastor protestante em uma das suas comunidades que está esvaziando a Igreja Católica precisamente com o proselitismo que ele duramente condenou entre os Católicos?
Poderíamos continuar, é claro, com esses aspectos que parecem – e talvez são de fato – contraditórios. Poderíamos, mas não seria certo para um crente. Estes sabem que não se pode olhar para um Pontífice como se olha para um presidente eleito da República ou como um rei, herdeiro aleatório de outro rei. Claro, no Conclave, esses instrumentos do Espírito Santo, de acordo com a fé, são os cardeais eleitores que compartilham dos limites, erros, talvez os pecados que marcam a humanidade inteira. Mas o chefe único e verdadeiro da Igreja é Cristo onipotente e onisciente, que sabe um pouco melhor do que nós o que é a melhor escolha no que diz respeito ao seu representante temporário na terra. Esta escolha pode parecer desconcertante para a visão limitada dos contemporâneos, mas, em seguida, na perspectiva histórica, revela as suas razões. Quem realmente conhece a história fica surpreso e pensativo ao descobrir que – na perspectiva da visão milenar, que é aquela Católica — todos os Papas, conscientes ou não, interpretaram o seu papel idoneamente, e que no final, pareceu ser o necessário. Precisamente por estar consciente disso é que eu escolhi, no que me diz respeito, apenas observar, ouvir, refletir sem me lançar em opiniões intempestivas ou até temerárias.
Nos vemos em três dias", diz papa Francisco no TwitterParafraseando uma pergunta muito mencionada fora do seu contexto: “Quem sou eu para julgar?”. Eu, que – ao lado de muitos outros, excluindo apenas um — certamente não sou assistido pelo “carisma pontifício” da assistência prometida pelo Paráclito.
E para aqueles que querem julgar, será que não diz nada a aprovação plena, e várias vezes repetida – verbalmente e por escrito – da atividade de Francisco por parte do  “Papa Emérito”, apesar de serem tão diferentes em estilo, formação, e até mesmo programa de governo?
Terrível é a responsabilidade de quem hoje é chamado a responder à pergunta: “Como anunciar o Evangelho aos contemporâneos? Como mostrar que Cristo não é um fantasma desaparecido e remoto, mas o rosto humano do Deus criador e salvador que todos podem e querem para dar sentido à vida e à morte?”. Há muitas respostas, muitas vezes conflitantes.
Papa Francisco.Para aquele pouco que conta, depois de décadas de experiência eclesial, também eu teria as minhas respostas. Eu, por exemplo diria que a condicional é obrigatória porque nada e ninguém me assegura ter vislumbrado a via adequada. Não correria talvez a o risco de ser como o cego do Evangelho, aquele que quer guiar outros cegos, acabando todos no mesmo abismo? Assim, certas escolhas pastorais do “Bispo de Roma”, como ele prefere ser chamado, convencem-me; mas outras me deixam perplexo, pois me parecem pouco oportunas, talvez suspeitas de um populismo capaz de obter um interesse tão vasto como superficial e efêmero. Eu teria que observar algumas coisas sobre as prioridades e conteúdos, na esperança de um apostolado mais fecundo. Eu teria pensado no condicional, repito, como exige uma perspectiva de fé, onde qualquer pessoa, mesmo um leigo (como estabelece o código canônico), pode expressar seus pensamentos, desde que de modo pacato e motivado sobre as táticas de evangelização. Mas deixando ao homem que saiu vestido de branco do Conclave a estratégia geral e, acima de tudo, a custódia do “depósito da fé”.
Em qualquer caso, não esquecendo de que foi o próprio Francisco que lembrou em seu duro discurso à Cúria: é fácil, disse ele, criticar os sacerdotes, mas quantos estão orando por eles? Querendo também recordar que ele, na Terra, é o “primeiro” entre os sacerdotes. E, assim, pedindo, a quem critica, aquelas orações que o mundo zomba, mas que guiam em segredo o destino da Igreja e do mundo inteiro.
* * *

Nenhum comentário:

Postar um comentário