Leonardo Boff, teólogo brasileiro – 27 de dezembro de 2014
Eu li com um pouco de tristeza o artigo crítico de Vittorio Messori no Corriere della Sera,
exatamente no dia menos adequado: a feliz noite de véspera de Natal,
festa de alegria e de luz. Ele tentou estragar essa alegria para o bom
pastor de Roma e do mundo, o Papa Francisco. Mas em vão, pois não sabe o
significado da misericórdia e da espiritualidade deste Papa, virtude
que seguramente não demonstra Messori. Por trás de palavras de compaixão
e compreensão traz um veneno. E o faz em nome de tantos outros que se
escondem por trás dele e não têm coragem de aparecer em público.
Eu quero propor uma outra leitura do papa
Francisco, como um contraponto à de Messori, um convertido que, na
minha opinião, ainda precisa completar sua conversão com a recepção do
Espírito Santo, para não dizer mais as coisas que escreveu.
Messori ficou escandalizado com a
“imprevisibilidade” deste pastor porque “continua perturbando a
tranquilidade do católico médio”. É necessário perguntar-se sobre a
qualidade de fé deste “católico médio” que tem dificuldade em aceitar um
pastor que tem cheiro de ovelha e que anuncia a “alegria do Evangelho”.
São geralmente “católicos culturais” habituados à figura faraônica de
um Papa com todos os símbolos de poder dos imperadores romanos pagãos.
Agora aparece um Papa “franciscano” que ama os pobres, que não “veste
Prada”, que faz uma dura crítica ao sistema que produz a miséria em
grande parte do mundo, que abre a Igreja não só aos católicos, mas a
todos aqueles que carregam o nome de “homens e mulheres”, sem julgá-los,
mas acolhendo-os no espírito da “revolução da ternura”, como ele pediu
aos bispos da América Latina que se reuniram no ano passado no Rio.
Messori é refém de uma visão linear
própria de seu ““amado Joseph Ratzinger” e de tantos outros papas
anteriores. Infelizmente, foi esta visão linear que fez da Igreja uma
fortaleza incapaz de compreender a complexidade do mundo moderno,
isolada em meio a outras igrejas e caminhos espirituais, sem dialogar e
sem aprender com os outros que também são iluminados pelo Espírito.
Significa blasfemar contra o Espírito Santo pensar que os outros pensam
só de modo errado. Por isso é extremamente importante uma Igreja aberta
como o quer Francisco de Roma. Para perceber as irrupções do Espírito
na história. Não é sem motivo que alguns teólogos o chamam a “ fantasia
de Deus”, por causa de sua criatividade e novidade na sociedade, no
mundo, na história dos povos, nos indivíduos, nas igrejas e até mesmo na
Igreja Católica.
Sem o Espírito Santo, a Igreja torna-se
uma instituição pesada, sem graça, sem criatividade e, em certo ponto,
que não tem nada a dizer ao mundo que não seja doutrina encima de
doutrina, sem despertar a esperança e a alegria de viver.
É um dom do Espírito Santo que este Papa
venha de fora do velho cristianismo europeu. Não aparece como um
teólogo sutil, mas como um pastor que realiza o que Jesus pediu a Pedro:
“confirma seus irmãos na fé” (Lc 22:31). Traz consigo a experiência das
igrejas do Terceiro Mundo, especialmente, as da América Latina.
Esta é uma outra falha de Messori: não
ter a dimensão do fato de que hoje o cristianismo é uma religião do
Terceiro Mundo, como enfatizou muitas vezes o teólogo alemão Johan
Baptist Metz. Na Europa vivem apenas 25% dos católicos; o resto dos
72,56% vive no Terceiro Mundo (na América Latina 48,75%). Por que não
poderia vir desta maioria um que o Espírito fez bispo de Roma e Papa
universal? Por que não aceitar as inovações que derivam dessas igrejas,
que já não são igrejas-imagens das velhas igrejas europeias, mas
igrejas-emergentes com seus próprios mártires, confessores e teólogos?
Talvez no futuro, a sede do Primado não
será mais Roma e a Cúria, com todas as suas contradições, denunciados
pelo Papa Francisco na reunião de Cardeais e prelados da Cúria com
palavras só ouvidas da boca de Lutero e com menos força em meu livro
condenado por card. J. Ratzinger “Igreja: Carisma e Poder” (1984), mas
sim lá onde vive a maioria dos católicos: na América, África ou Ásia.
Seria um sinal próprio da verdadeira catolicidade da Igreja no processo
de globalização do fenômeno humano.
Eu esperava uma maior inteligência e
abertura por parte de Vittorio Messori com os seus méritos de católico,
fiel a uma espécie de Igreja e renomado escritor. Este Papa Francisco
trouxe esperança e alegria para tantos católicos e outros cristãos. Não
percamos este dom do Espírito em função de uma mentalidade bastante
negativa sobre ele.
Leonardo Boff
Fonte http://fratresinunum.com/
Obs.: Leonardo Boff, escritor e teólogo e filósofo da Nova Era. Apoia a Nova Ordem Mundial. Apoia a exterminação da humanidade. (Leia a Carta da Terra).
Ass.: MC GUERREIRO
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