Aos 7 anos, Cecília
reivindicou tanto junto aos meninos que conseguiu quebrar um tabu e
inserir as meninas nas partidas de futebol no recreio da escola. Sua
motivação era menos a vontade de jogar que a inconformidade com a
proibição das amigas participarem dos jogos.
(meninas aderem cada vez mais ao futebol)

João, também de 7, costuma responder com
ironia a quem zomba de sua bolsa. “Olha lá, ele acha que existe coisa
de menino e coisa de menina”, disse certa vez. O gaúcho Vinícius, 9, também já sabe que não é exatamente errado gostar de costurar e de usar batom.
Ainda que não tenham plena consciência,
Cecília, João e Vinícius já lutam pela equidade de gêneros e fazem pouco
da máxima: “isso é coisa de menino, isso é coisa de menina”. Com
naturalidade, eles não só exploram as inúmeras possibilidades de
comportamento como exercem e respeitam o direito que têm de serem livres
e iguais, em direitos, perante o sexo oposto.
Boneca, carrinho, rosa, azul,
bola e batom se misturam na vida de todos graças à ideia de igualdade
que norteia o modo como eles vêm sendo educados. Nesse sentido, o
empoderamento feminino e o combate à cultura machista se faz presente.

“É sempre bom lembrar que criar alguém
dentro dos moldes feministas não significa não dar limites, mas libertar
dos padrões que impostos. Eles limitam e programam a criança, que
muitas vezes sofre e reproduz a opressão no futuro”, conta a gaúcha
Jéssica Castency, 23, moderadora da página “Empoderamento Infantil”, no
Facebook, e irmã de Vinícius.
Jéssica conta que a página foi criada no
intuito de divulgar matérias que elucidassem, para os pais, como
aplicar ideais de igualdade já na infância. “O objetivo é mesmo romper
com o sexismo que nos rodeia. E isso é mais simples do que se imagina:
criar uma criança livre de barreiras é mais fácil do que cerceá-la a
todo momento. Dar liberdade de escolha sobre o brinquedo, a roupa, a
cor, o corte de cabelo que quer é ensinar sobre autonomia, é testar
capacidades. A internet é uma boa ferramenta para difundir essa
filosofia. É na internet que o movimento está acontecendo, mas é com as
crianças que isso vai se consolidar no futuro. Não vejo horizonte à
frente sem que estejamos focados nessa nova geração”, defende.
O termo “desconstrução”, que se repete
no discurso dessas mães, talvez tenha sido um dos mais citados, ao lado
do “empoderamento”, neste ano em que tanto se falou sobre o feminismo –
questões da mulher foram abordadas no Enem, marchas em prol de pautas
feministas ocorreram em todo o país, capas de revista abraçaram a causa e
o Facebook foi palco de denúncias, alertas e desabafos com as campanhas
#primeiroassédio e #meuamigosecreto. Desconstruir é, nesse caso,
desmistificar os estereótipos do que seriam as tais “coisas, lugares,
papéis de homem” e “coisas, lugares e papéis de mulher”.
Para Carlos Mendonça, professor do
departamento de comunicação social da UFMG, desconstruir é preciso, já
que o que entendemos por identidade de gênero é um construção social. “O
gênero não é natural, é social. Não existe um comportamento que já vem
no DNA, mas sim uma série de procedimentos de linguagem engendrados para
que você seja considerado homem ou mulher”, comenta. “Desmontar as
estruturas hegemônicas e opressoras é fundamental pra garantir direitos,
liberdades e qualidade de vida para todos nós”, conclui, confirmando na
teoria o que Cecília já aprendeu na prática.
Não é à toa que as mães mais críticas se
mantenham atentas ao modo como os filhos se relacionam com o consumo e
com a televisão: a publicidade infantil, os produtos e os programas
destinados às crianças são, atualmente, os veículos mais sedutores a
serviço do binarismo de gênero.

É importante, então, que cada família
saiba dosar os estímulos e seguir, cada uma a seu modo, com a missão de
questionar e desconstruir os discursos hegemônicos e opressores.
De acordo com ele, os desenhos animados
têm recuperado determinadas perspectivas – gêneros não definidos, seres
híbridos e espécies imaginárias – do mundo infantil que há muito estavam
ocultas. “Os filmes da Disney sempre foram altamente disciplinares. A
Branca de Neve foi feita para ensinar a mulher a ser mulher, dona de
casa e mãe. Agora a empresa revê alguns de seus clássicos e refaz as
versões das histórias. Hoje, a Branca de Neve tem outras questões”,
comenta Mendonça sobre os remakes e novos filmes que trazem personagens
femininas em papeis de protagonismo ou em condição de igualdade. Fonte:
www.otempo.com.br
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