"Trabalha como um bom soldado de Cristo".
Os combates pelo amor são longos e por
vezes difíceis, e toda alma, por pouco generosa que seja, verifica em si
mesma, em dados momentos, um movimento de depressão que se chama
desânimo.
Essa depressão nasce insensivelmente da
acumulação de contratempos e reveses sucessivos. A alma sente-se
abatida, depois, de repente, um acidente qualquer, uma pequena
indisposição, uma fadiga corporal, uma palavra de repreensão, uma falta
de atenção sobrevêm a nosso respeito e a alma desanima.
Então tudo se torna pesado. A
conversação espiritual é insípida, os livros que de ordinário a
estimulavam perdem o sabor, os exercícios espirituais tornam-se um ônus
intolerável. Nada a encoraja, tudo a aborrece e a desgosta.
A vida espiritual parece uma ilusão;
atingir-lhe o cimo, uma impossibilidade. E ela senta-se tristemente a
meia encosta sem forças para as alturas. Eis, por certo, um sério
obstáculo, que impede por vezes o caminho às almas mais resolutas.
Importa procurar as causas do desânimo e os meios de frustrar-lhes a
influência paralisante.
Antes de tudo, o que deve consolar-te,
alma piedosa, é não seres tu a única, sujeita a essas depressões
passageiras. As melhores almas sofrem por vezes desse mal… Jesus, em sua
infinita sabedoria, permite de bom grado que as almas mais dispostas
sintam algumas vezes sua impotência pessoal.
Aliás “não é extraordinário, como diz São Francisco de Sales, que a miséria se sinta por vezes miserável”.
Não é de estranhar que a natureza se
canse e não queira mais avançar. Não é de admirar que o nosso corpo,
como o asno de Balaão, recuse às vezes, seus serviços e, insensível aos
golpes, se deixe abater antes que nos conduzir.
A razão dessa canseira é quase sempre
uma série de exercícios espirituais e trabalhos exteriores por demais
longa. É preciso que tudo se faça com medida e não exigir do corpo e do
espírito senão o que eles podem razoavelmente dar. É preciso, pois,
repousar, confortar-se a tempo, e depois dizer com nova energia:
Vamos! Ainda um pouco de tempo, o cume já não está tão longe, Deus ajudará. Para frente!
Os sentidos do homem são inclinados,
desde tenra idade, para o sensível e fascinados pelos objetos
exteriores. A razão não conhece a existência de Deus, senão por um
trabalho de educação. Tudo que ele sabe do mundo sobrenatural sabe-o por
ouvir dizer!
E esse ser tão ínfimo, tão ignorante e
tão inclinado para o mal, que somos nós, quer aspirar, por um esforço
contínuo, a tornar-se amante apaixonado de uma beleza superior. Quer
esgotar, para atingir esse ideal, todas as forças de sua alma e de seu
corpo, e a cada inspiração, e a cada inspiração, a cada apelo apenas
perceptível, de uma graça invisível, quer elevar-se ainda mais alto.
Esse homem fraco, feito de sangue e de
pó, propõe-se renunciar a todas as aspirações animais, modificar-se,
contradizer-se, corrigir seu raciocínio e seu coração, não uma vez por
acaso, mas sempre, e isso sob a influência de um agente misterioso que
ele não vê e no qual crê e cujo socorro implora.
Oh! Não, uma vida tão heróica só pode ser levada graças a uma luta incessante.
Como é belo ver esse homem, exposto a todas as seduções, a todos os ataques do mundo e do inferno, a todas as conivências íntimas, voltar-se para Deus, impertubavelmente, apesar de suas fraquezas!
Como é belo ver esse homem, exposto a todas as seduções, a todos os ataques do mundo e do inferno, a todas as conivências íntimas, voltar-se para Deus, impertubavelmente, apesar de suas fraquezas!
Também a santidade não exclui a luta,
ela a supõe e a exige. A perfeição na terra não é o repouso nem o
prazer. Não é um estado fixo. É uma ascensão para Deus, uma continuidade
de esforços, uma tendência incessante para aproximar-se do ideal
sobrenatural: Ad ea quae priora sunt extendens meipsum (Filip 3,13).
Toda santidade no mundo é relativa; pode e deve aumentar continuamente.
Quanto mais a alma se une a Deus, e
afunda-se na sua infinidade, tanto mais os espaços se estendem e os
horizontes se ampliam. É o infinito a atravessar.
Afasta, pois, de teu espírito
essa falsa idéia de que aqui na terra encontrarás repouso. Não estás no
mundo para desfrutar de Deus, mas para amá-Lo no trabalho, no sofrimento
e na luta.
E se há luta, haverá quedas
algumas vezes… o soldado que combate valorosamente expõe-se a golpes e
ferimentos, porém suas cicatrizes são para ele títulos de glória. Muitos
há que não distinguem, na vida espiritual, a parte que lhes pertence e a
que pertence a Deus.
… A deles consiste, antes de tudo, em
amar a Deus, esforçar-se por pertencer-lhe, pedir-lhe mais amor, e, em
seguida, em levantar-se sempre com simplicidade após suas faltas, e
purificar-se no sangue de Jesus.
Quanto ao mais, tudo é obra do Mestre.
Enquanto a alma luta e geme pelas suas faltas e lamenta-se por não saber
amar a Deus, esse Deus invisivelmente, enriquece-a com graças, orna-a
de virtudes, cava nela a humildade e a paciência e une-se-lhe por tantas
cadeias quantas ela faz de atos de amor e contrição.
E esse trabalho a dois prossegue até ao
último instante da vida. A alma não viu senão faltas, e, com efeito, ela
recaiu muitas vezes, e Deus não quis contar senão os atos de amor.
…Alma de boa vontade, não te aflijas,
pois, por tuas faltas. Pede sempre perdão a Jesus e recomeça, sem te
cansar, tua vida de amor.
Bem vês, o indispensável é amar, amar
sempre. O amor dar-te-á constância na luta, como te dará a compunção e o
espírito de oração.
– O amor te ensinará a purificar tua
vontade pelo desapego, disciplinar tua liberdade pela obediência,
desembaraçar tua inteligência dos pensamentos inúteis.
– O amor te excitará à reflexão, retificará teu raciocínio pela humildade, dirigirá tua imaginação e acalmará tuas paixões.
– O amor reprimirá teus sentidos na pureza, desprenderá tua alma de todos os bens terrestres.
– O amor te conduzirá à intimidade de
Jesus, revelando-te o mistério de sua paixão, de sua vida eucarística,
de sua vida mística, que continua em ti.
– O amor te ensinará, enfim, a
desapegar-te de ti mesmo para seres um com Jesus, viver Dele, agir com
Ele, sofrer com Ele, e continuar, por Ele, a obra da redenção.
Assim, tudo começa, aperfeiçoa-se e acaba no amor.
Ó minha alma!…renova a Jesus a resolução de ser constante no amor.
Se o cansaço, o desânimo ou a desconfiança buscam invadir-te, olharás para o céu.
Jesus lá está e cuida de ti. Ninguém te
arrancará de suas divinas mãos. Ele é o Amigo fiel, que começou e
terminará a obra de tua santificação. Terminá-la-á não obstante as
dificuldades exteriores e interiores, contanto que tenhas confiança Nele
e que o deixes agir em tua alma.
Ama-O muito. Repete constantemente que o
amas. Pede-Lhe sempre mais graças, mais luzes, mais força. Volve a Ele
sem jamais te cansar. Tua santidade estará garantida.
O Divino Amigo – Pe. SchrijversFonte: http://catolicosribeiraopreto.com
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